Nº 02   fevereiro-maio/2004
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Usina de Enriquecimento de Resende: ABACC e AIEA em inspeção conjunta


Na edição do último dia 04 de abril, o jornal The Washington Post publicou um artigo no qual afirmava que o governo brasileiro se negava a permitir inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) na usina de enriquecimento de urânio que está sendo construída em Resende, no Rio de Janeiro, Brasil. O artigo também levantava a suspeita sobre uma nova corrida nuclear e o perigo de sua potencial evolução para um programa de armas nucleares. Como era de se esperar, essa informação foi rapidamente foi abordada pelos principais meios de comunicação do Brasil e da Argentina o que levou à necessidade de inúmeros esclarecimentos por parte das autoridades de ambos países e da Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC).

Não é a primeira vez e, certamente, não será a última que jornais importantes como o The Washington Post divulgam notícias sensacionalistas que induzem a conclusões falsas as quais, intencionalmente ou não, podem criar obstáculos ao desenvolvimento nuclear dos países. Por essa razão, é conveniente que utilizemos este espaço para esclarecer à comunidade internacional de salvaguardas os pontos essenciais dessa controvérsia.

A usina que esta sendo construída em Resende, é uma instalação comercial para enriquecimento de urânio a baixos níveis, por ultracentrifugação. A primeira etapa dessa usina, que representa uma pequena fração de sua capacidade total, deverá entrar em operação até o final de 2004, segundo informações publicamente divulgadas pelas Indústrias Nucleares do Brasil (INB). Para essa primeira etapa, a ABACC negociou e acordou com as autoridades brasileiras os procedimentos de inspeção e verificação, baseados no controle de perímetro. Esses procedimentos permitirão a esta Agência cumprir suas obrigações estabelecidas no Sistema Comum de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (SCCC), da Argentina e do Brasil, conforme o Acordo Bilateral entre os dois países. Paralelamente, a AIEA está negociando com a ABACC e as autoridades brasileiras uma forma de realizar a verificação da usina, quando sua montagem completa estiver concluída, obedecendo o estabelecido no Acordo Quadripartite. Ou seja, o que ocorre neste momento é uma diferença de abordagem sobre uma mesma questão. A AIEA deseja ver discutido o enfoque de salvaguardas para a usina como um todo e a ABACC, juntamente com as autoridades brasileiras, está negociando a aplicação de salvaguardas para a primeira de etapa da referida instalação. O entendimento da ABACC é que, neste estágio da construção da planta de enriquecimento, a manutenção dos painéis para a proteção dos segredos tecnológicos, como deseja o operador, não representa impedimento para a aplicação efetiva das salvaguardas nucleares. A implementação de medidas de salvaguardas que incluam o acesso visual irrestrito ao hall de cascatas, como defende a AIEA, é um tema que deverá ser discutido, mais tarde, à medida que usina for sendo ampliada.

Esse tipo de negociação é normal durante a construção de qualquer usina com as características da planta de Resende. É importante notar que a AIEA já anunciou o tipo de inspeções ad-hoc que pretende realizar, baseadas na verificação periódica das mudanças de inventário de material nuclear e na tomada de swipe samples em pontos estratégicos, até que seja acordado com a ABACC e o Brasil o enfoque de salvaguardas, no âmbito do Acordo Quadripartite.

Elías Palacios
José Mauro Esteves dos Santos

Secretários




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