Usina de enriquecimento
de urânio da INB: testes e implantação do sistema de
vigilância DMOSS pela ABACC
Luis Rovere e
Hugo Vicens
Logo na primeira reunião de negociação para definir
o enfoque de salvaguardas na usina comercial de enriquecimento isotópico
das Indústrias Nucleares do Brasil (INB), coube à ABACC a
função de fornecer o sistema de vigilância a ser implementado
dessa instalação, conforme as diretrizes estabelecidas nos
“guias para a coordenação das atividades de inspeção
entre a ABACC e a AIEA”, em 1997.
Para cumprir essa tarefa, a ABACC teve que escolher o sistema de vigilância,
realizar os testes de funcionamento em laboratório e instalar o sistema
antes do início da operação rotineira da primeira cascata
da usina, cujo processo de licenciamento havia sido previsto para o primeiro
semestre de 2004.
A escolha do sistema de vigilância foi bastante complexa, pois, no
início das negociações, não havia uma idéia
precisa das medidas de salvaguardas que seriam aplicadas na instalação.
O espectro de possibilidades era muito amplo porque dependia das condições
de contorno. Além disso, havia a necessidade de montar a vigilância
da estação de alimentação e retirada bem como
estabelecer as medidas de fortalecimento do acesso não-anunciado
ao hall de cascatas. Estas duas situações levavam a alternativas
muito diferentes, tais como a implementação de um perímetro
permanente, acessos não-anunciados com perímetro transitório
ou controle de pontos estratégicos de forma permanente e/ou restrita
apenas à permanência dos inspetores durante as inspeções
não-anunciadas.
Somando-se a essas alternativas, era necessário considerar o fato
de que ao longo de vários anos haveria cascatas em operação
rotineira atuando paralelamente a outras ainda em processo de licenciamento
e montagem e tendo como provável que, além de uma estação
permanente de alimentação e retirada, existiria uma estação
transitória de menor porte operando, simultaneamente, com seus pontos
estratégicos associados. Como se tratava de um projeto em evolução,
alguns dos critérios operacionais ainda estariam em discussão
no intuito de encontrar soluções que otimizassem a operação
rotineira com a incorporação de novas cascatas.
Apesar das indefinições, cinco características do
sistema de vigilância pareciam nitidamente distintas:
- o sistema deveria ser muito confiável uma vez
que neste tipo de instalação, em caso de
perda de vigilância, a reverificação
de cilindros não restituiria o conhecimento de
forma permitisse cobrir todos os cenários de desvio;
- o sistema deveria estar apto para transmitir de forma
remota, pelo menos o seu estado de funcionamento;
- a capacidade de armazenamento deveria ser adequada para
qualquer das alternativas possíveis;
- o sistema deveria suportar, no mínimo, cinco
ou seis câmeras configuradas em diferentes modos
de operação;
- a configuração do sistema deveria ser
versátil o suficiente para permitir sua adaptação
a qualquer das alternativas possíveis.
Para realizar a seleção do sistema, a ABACC
optou pela hipótese da existência de um perímetro
contínuo, dispondo de câmeras na entrada principal
que capturassem, a cada dez segundos, todas as movimentações
de entrada e saída. Na estação transitória
de alimentação e retirada seriam instaladas
duas câmeras, e na estação de alimentação
e retirada principal, além das câmeras, selos
VACOSS (Variable Coding Seal System) conectados às
mesmas, seriam utilizados como dispositivos de contenção
para os cilindros de processo e com capacidade de disparar
as câmeras. Finalmente, o sistema teria câmeras
nas saídas de emergência, também conectadas
a selos VACOSS.
O sistema pré-selecionado pela ABACC para as condições
mais conservadoras foi o DMOS (Digital Multi-channel Optical
System), uma vez que dispunha de características
técnicas muito versáteis como:
- utilização de câmeras do tipo DCM-14
(Digital Camera Module 14) que possuem alto nível
de confiabilidade e em cuja instalação e
operação a ABACC já possuía
cinco anos de experiência;
- alta capacidade de armazenamento do sistema, suficiente
para manter no próprio equipamento a informação
correspondente a, pelo menos, dois períodos de
vigilância consecutivos;
- máxima redundância de dados. O sistema
dispõe de armazenamento nos cartões de memória
das câmeras, nos arranjos de discos redundantes,
e em duas unidades de fitas DLT (Digital Linear Tapes)
independentes;
- o servidor está equipado com fontes de alimentação
redundantes. Além disso, cada módulo de
gerenciamento das câmeras, é alimentado por
diferentes sistemas de alimentação elétrico,
permitindo que as câmeras continuem energizadas,
mesmo em caso de falha da UPS (Uninterruptible Power
Supply);
- o software do sistema permite aplicações
de monitoramento remoto por meio do RAS (Windows NT’s
Remote Access Service), compatível com diversos
equipamentos de comunicação e protocolos
de rede;
- o servidor aceita a configuração de uma
estrutura de arquivos e subdiretórios que permite
gravar as imagens de algumas câmeras em diferentes
pastas com períodos diferenciados de maneira que
satisfazem, simultaneamente, os quesitos necessários
para as inspeções interinas e as não-anunciadas,
em aquelas câmeras que monitoram os pontos estratégicos;
- os cabos de comunicação e fornecimento
de energia das câmeras, encontram-se isolados eletricamente
do servidor;
- capacidade para conectar um elevado número de
câmeras.
Antes de comprar o equipamento, a ABACC solicitou a realização
de testes de funcionamento ao pessoal do Sandia National
Laboratories para um sistema equipado com nove câmeras
disparadas por um dispositivo de abertura/fechamento de porta.
Também foi solicitado testar a captura de imagens em
intervalos de dez segundos para algumas câmeras e de
três 3 minutos para outras, e ainda dos tempos requeridos
para efetivar a revisão das mesmas. Os resultados obtidos
foram satisfatórios.
O sistema foi adquirido pela ABACC em 2003 e testado durante
um ano em seu laboratório – oportunidade na qual
também foi testada a transmissão remota do estado
de saúde do equipamento. Paralelamente, a negociação
do enfoque de salvaguardas continuou e evoluiu para um enfoque
que não requer qualquer tipo de perímetro, mas
no qual o sistema de vigilância tem um papel muito importante.
Nesse novo enfoque, o sistema adquirido não introduz
qualquer tipo de limitação para as câmeras
que monitoram os pontos estratégicos e permitirá
sua conexão à interface que registra o fechamento
e abertura dos selos VACOSS na estação de alimentação
e retirada, cumprindo, simultaneamente, com os quesitos de
inspeções interinas e não-anunciadas,
além de não limitar o número de câmeras
que requeira o comissionamento das novas cascatas, ser confiável
e permitir uma aplicação simples de transmissão
remota de dados.
O sistema foi instalado na usina no início de 2005.
Em outubro estarão concluídos os seis meses
de testes em campo requeridos para sua utilização
rotineira com fins de salvaguardas.
Ainda em setembro deste ano, começará a operação
rotineira da primeira cascata. A ABACC cumpriu seu objetivo
inicial de instalar e colocar em funcionamento o DMOS. Resta
apenas esperar que os resultados confirmem, no futuro, as
qualidades do sistema.
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Os Tratados de Desnuclearização
e o Futuro
por ››› Marco
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