Nº 04  janeiro-setembro/2005
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Usina de enriquecimento de urânio da INB: testes e implantação do sistema de vigilância DMOSS pela ABACC

Luis Rovere e Hugo Vicens

Logo na primeira reunião de negociação para definir o enfoque de salvaguardas na usina comercial de enriquecimento isotópico das Indústrias Nucleares do Brasil (INB), coube à ABACC a função de fornecer o sistema de vigilância a ser implementado dessa instalação, conforme as diretrizes estabelecidas nos “guias para a coordenação das atividades de inspeção entre a ABACC e a AIEA”, em 1997.

Para cumprir essa tarefa, a ABACC teve que escolher o sistema de vigilância, realizar os testes de funcionamento em laboratório e instalar o sistema antes do início da operação rotineira da primeira cascata da usina, cujo processo de licenciamento havia sido previsto para o primeiro semestre de 2004.

A escolha do sistema de vigilância foi bastante complexa, pois, no início das negociações, não havia uma idéia precisa das medidas de salvaguardas que seriam aplicadas na instalação. O espectro de possibilidades era muito amplo porque dependia das condições de contorno. Além disso, havia a necessidade de montar a vigilância da estação de alimentação e retirada bem como estabelecer as medidas de fortalecimento do acesso não-anunciado ao hall de cascatas. Estas duas situações levavam a alternativas muito diferentes, tais como a implementação de um perímetro permanente, acessos não-anunciados com perímetro transitório ou controle de pontos estratégicos de forma permanente e/ou restrita apenas à permanência dos inspetores durante as inspeções não-anunciadas.

Somando-se a essas alternativas, era necessário considerar o fato de que ao longo de vários anos haveria cascatas em operação rotineira atuando paralelamente a outras ainda em processo de licenciamento e montagem e tendo como provável que, além de uma estação permanente de alimentação e retirada, existiria uma estação transitória de menor porte operando, simultaneamente, com seus pontos estratégicos associados. Como se tratava de um projeto em evolução, alguns dos critérios operacionais ainda estariam em discussão no intuito de encontrar soluções que otimizassem a operação rotineira com a incorporação de novas cascatas.

Apesar das indefinições, cinco características do sistema de vigilância pareciam nitidamente distintas:

  1. o sistema deveria ser muito confiável uma vez que neste tipo de instalação, em caso de perda de vigilância, a reverificação de cilindros não restituiria o conhecimento de forma permitisse cobrir todos os cenários de desvio;
  2. o sistema deveria estar apto para transmitir de forma remota, pelo menos o seu estado de funcionamento;
  3. a capacidade de armazenamento deveria ser adequada para qualquer das alternativas possíveis;
  4. o sistema deveria suportar, no mínimo, cinco ou seis câmeras configuradas em diferentes modos de operação;
  5. a configuração do sistema deveria ser versátil o suficiente para permitir sua adaptação a qualquer das alternativas possíveis.

Para realizar a seleção do sistema, a ABACC optou pela hipótese da existência de um perímetro contínuo, dispondo de câmeras na entrada principal que capturassem, a cada dez segundos, todas as movimentações de entrada e saída. Na estação transitória de alimentação e retirada seriam instaladas duas câmeras, e na estação de alimentação e retirada principal, além das câmeras, selos VACOSS (Variable Coding Seal System) conectados às mesmas, seriam utilizados como dispositivos de contenção para os cilindros de processo e com capacidade de disparar as câmeras. Finalmente, o sistema teria câmeras nas saídas de emergência, também conectadas a selos VACOSS.

O sistema pré-selecionado pela ABACC para as condições mais conservadoras foi o DMOS (Digital Multi-channel Optical System), uma vez que dispunha de características técnicas muito versáteis como:

  1. utilização de câmeras do tipo DCM-14 (Digital Camera Module 14) que possuem alto nível de confiabilidade e em cuja instalação e operação a ABACC já possuía cinco anos de experiência;
  2. alta capacidade de armazenamento do sistema, suficiente para manter no próprio equipamento a informação correspondente a, pelo menos, dois períodos de vigilância consecutivos;
  3. máxima redundância de dados. O sistema dispõe de armazenamento nos cartões de memória das câmeras, nos arranjos de discos redundantes, e em duas unidades de fitas DLT (Digital Linear Tapes) independentes;
  4. o servidor está equipado com fontes de alimentação redundantes. Além disso, cada módulo de gerenciamento das câmeras, é alimentado por diferentes sistemas de alimentação elétrico, permitindo que as câmeras continuem energizadas, mesmo em caso de falha da UPS (Uninterruptible Power Supply);
  5. o software do sistema permite aplicações de monitoramento remoto por meio do RAS (Windows NT’s Remote Access Service), compatível com diversos equipamentos de comunicação e protocolos de rede;
  6. o servidor aceita a configuração de uma estrutura de arquivos e subdiretórios que permite gravar as imagens de algumas câmeras em diferentes pastas com períodos diferenciados de maneira que satisfazem, simultaneamente, os quesitos necessários para as inspeções interinas e as não-anunciadas, em aquelas câmeras que monitoram os pontos estratégicos;
  7. os cabos de comunicação e fornecimento de energia das câmeras, encontram-se isolados eletricamente do servidor;
  8. capacidade para conectar um elevado número de câmeras.

Antes de comprar o equipamento, a ABACC solicitou a realização de testes de funcionamento ao pessoal do Sandia National Laboratories para um sistema equipado com nove câmeras disparadas por um dispositivo de abertura/fechamento de porta. Também foi solicitado testar a captura de imagens em intervalos de dez segundos para algumas câmeras e de três 3 minutos para outras, e ainda dos tempos requeridos para efetivar a revisão das mesmas. Os resultados obtidos foram satisfatórios.

O sistema foi adquirido pela ABACC em 2003 e testado durante um ano em seu laboratório – oportunidade na qual também foi testada a transmissão remota do estado de saúde do equipamento. Paralelamente, a negociação do enfoque de salvaguardas continuou e evoluiu para um enfoque que não requer qualquer tipo de perímetro, mas no qual o sistema de vigilância tem um papel muito importante. Nesse novo enfoque, o sistema adquirido não introduz qualquer tipo de limitação para as câmeras que monitoram os pontos estratégicos e permitirá sua conexão à interface que registra o fechamento e abertura dos selos VACOSS na estação de alimentação e retirada, cumprindo, simultaneamente, com os quesitos de inspeções interinas e não-anunciadas, além de não limitar o número de câmeras que requeira o comissionamento das novas cascatas, ser confiável e permitir uma aplicação simples de transmissão remota de dados.

O sistema foi instalado na usina no início de 2005. Em outubro estarão concluídos os seis meses de testes em campo requeridos para sua utilização rotineira com fins de salvaguardas.

Ainda em setembro deste ano, começará a operação rotineira da primeira cascata. A ABACC cumpriu seu objetivo inicial de instalar e colocar em funcionamento o DMOS. Resta apenas esperar que os resultados confirmem, no futuro, as qualidades do sistema.

 

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